Essa é eu vi no Blog do Doutor Caligari. Um sujeito chamado Edward McGowan reproduz em brinquedo famosas cenas de filmes e séries televisivas.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Cinema de brinquedo
sábado, 24 de setembro de 2011
O bebê que esteve em todos os filmes
Arthur está se tornando um bebê famoso na internet. Seu pai teve a excelente ideia de recriar cenas famosas do cinema, dessa vez com doses letais de bochechas. Algumas fotos da galeria:
Beleza Americana:
Rambo:
O Iluminado:
Tubarão:
Mais imagens no site do Arthur.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Livros que não gostaria de terminar - parte I
Acontece de vez em quando: o livro é tão bom que cada página virada é uma fração da tristeza que antecipa o fim.
Lembro-me da leitura de Submundo, do americano Don DeLillo. Foram dois meses para atravessar suas 732 páginas - não pela extensão, mas porque o prazer que a leitura proporcionava era tal que eu me recusava a terminá-la.
Não há como escapar incólume ao prólogo O triunfo da morte (publicado previamente como novela sob o nome Pafko At The Wall) e seus incontáveis personagens, todos carismáticos, humanos. Além
dos criados pelo imaginação do autor, personalidades marcantes na cultura americana fazem parte do romance: J. Edgar Hoover, o chefão do FBI de 1924 a 1972; Lenny Bruce, comediante polêmico e obsceno; Jack Gleason, outro comediante; Frank
Sinatra, entre outros.
A técnica cubista utilizada por DeLillo alterna entre diversos setores narrativos, onde diferentes parágrafos tratam de diferentes temas de forma elíptica. Ao término de um parágrafo retoma-se o assunto de dois ou três parágrafos anteriores. Portando-se como uma ferrenha crítica à Guerra Fria e, principalmente, aos métodos de deposição do lixo nuclear gerado ao longo de cinquenta anos, Submundo erige-se como a obra máxima de Don DeLillo e abre ala para altercações sobre o american way of life numa narrativa que cobre mais de 40 anos de história e versa sobre política, esporte, racismo, infância, família, relacionamentos, arte, marginalidade, homossexualidade, violência e energia nuclear. E não precisa levar dois meses para ser lida.
O mesmo aconteceu com a leitura de The Coast Of Utopia, de Tom Stoppard, sem publicação no Brasil. Toda a trilogia (composta por Voyage, Shipwreck e Salvage) de um dos maiores dramaturgos vivos é compilada neste volume que trata do período pré-revolução na Rússia, sob o governo do czar Nicolau II. Os personagens? Ivan Turgenev, Alexander Herzen, Mikhail Bakunin, Karl Marx - e a lista segue.
Exilados de sua Rússia natal, o grupo de amigos tenta se restabelecer publicando um jornal que tem como modelo os recentes movimentos políticos europeus, particularmente o pensamento dos alemães Fichte, Hegel e Schelling. Bakunin deseja mudança a qualquer preço. Herzen acredita que ela não deve vir à custa do indivíduo e que o homem deve ser preservado do possível caos político que se abateria sobre ele caso as ideias de Bakunin fossem postas em prática.
Esse é apenas o estopim para uma história que trata, acima de tudo, sobre laços: os que unem um ser humano ao outro por via do amor e da amizade e os laços que nos unem ao abstrato, a um país, a ideias e mesmo ao nada - um dos personagens é um conhecido niilista. O verdadeiro trunfo é a condução de Stoppard, que, como um maestro, nos leva por uma verdadeira jornada de imersão, trazendo-nos conteúdo histórico que em nada deve ao mais didático historiador à disposição.
Esta viagem à Europa do século XIX terá em seu caminho chegadas e partidas, algumas bastante doloridas que podem ser mortais a quem ler com a sensibilidade à flor da pele. Mas quem se dispor a ler terá diante de si a prazerosa experiência de, por algumas horas, vestir a pele de um revolucionário a sua escolha.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
As mil palavras de Sebald
Em sua resenha de Guerra aérea e literatura para o Meia Palavra, o escritor Antônio Xerxenesky a certa altura escreve: "O ditado diz: 'Uma foto vale mais do que mil palavras'. Meu querido
ditado, você não conhece as mil palavras de Sebald. A descrição de
Sebald é muito mais impressionante do que qualquer foto."
Transcrevo abaixo um trecho das tais "mil palavras de Sebald", retirado do primeiro ensaio que compõe o livro, e que trata dos bombardeios aéreos aliados sobre cidades alemãs. A descrição é visceral:
"Dentro de poucos minutos, em toda a área atacada - cerca de vinte quilômetros quadrados - queimavam fogueiras gigantescas que iam se juntando em tal velocidade que, quinze minutos após o lançamento das primeiras bombas, todo o espaço aéreo formava um mar de chamas contínuo, até onde se podia enxergar. E, cinco minutos depois, à 1h20, se ergueu uma tempestade de fogo com uma intensidade que nenhum ser humano teria imaginado possível até aquele momento. Chamejando por 2 mil metros céu adentro, o fogo arrebatava o oxigênio com tamanha violência que as correntes de ar atingiram a força de um furacão, e trovejavam como órgãos poderosos cujos registros tivessem sido acionados ao mesmo tempo. Esse incêndio durou três horas. No seu ponto culminante, a tempestade levantou frontões e telhados de casas, revirou pelo ar vigas e outdoors inteiros, arrancou árvores de solo e açoitou as pessoas em fuga como se fossem tochas vivas. Por trás de fachadas que desmoronavam, as chamas atingiam a altura dos prédios, rolando pelas ruas como uma torrente numa velocidade superior a 150 km/h, e rodopiando em ritmos bizarros pelos espaços abertos, como cilindros de fogo. Em alguns canais a água incandescia. Nos vagões dos bondes, as janelas de vidro derretiam; o estoque de açúcar fervia nos porões das confeitarias. Os que fugiam de seus abrigos caíam em contorções grotescas no asfalto dissolvido, que rompia em volumosas bolhas. Ninguém sabe ao certo quantos morreram nessa noite ou quantos enlouqueceram antes que a morte os atingisse. Quando a manhã despontou, a luz do sol não atravessava a escuridão de chumbo sobre a cidade. A fumaça subiu até uma altura de 8 mil metros e lá se expandira como uma gigantesca nuvem cúmulo-nimbo em forma de bigorna. Um calor latejante, que os pilotos dos bombardeiros relataram ter sentido através da fuselagem de suas aeronaves, foi exalado ainda por muito tempo pelas montanhas de escombros fumegantes em brasa. Bairros residenciais com uma malha de rua totalizando duzentos quilômetros estavam completamente arrasados. Por toda parte havia corpos terrivelmente desfigurados. Em alguns ainda tremeluziam as chamas azuladas do fósforo, outros, assados, apresentavam uma cor marrom ou púrpura e tinham minguado a um terço de seu tamanho natural. Jaziam encolhidos nas poças de sua própria gordura já parcialmente resfriada. Em agosto, depois do arrefecimento dos escombros, quando as brigadas de prisioneiros e internos dos campos de concentração puderam dar início aos trabalhos de desobstrução no interior da zona da morte - decretada área interditada logo nos dias seguintes ao ataque -, foram encontradas pessoas que, arrebatadas pelo monóxido de carbono, ainda se encontravam sentadas à mesa ou apoiadas na parede; em outros lugares, havia pedaços de carne e ossos ou montes inteiros de corpos escaldados pela água fervente lançada pelas caldeiras que explodiram. Outros, por sua vez, foram carbonizados e reduzidos a cinzas pela brasa que atingira a temperatura de mais de 1000 ºC, a tal ponto que os restos mortais de famílias inteiras podiam ser retirados em um único cesto de roupa."
As atrocidades seguem.
Em breve mais informações sobre o livro aqui no blog.
As atrocidades seguem.
Em breve mais informações sobre o livro aqui no blog.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Clarita, 15 anos de Alzheimer
Após assistir ao vídeo sobre o poeta sem palavras, a Suellen (do Blá de Bebê) me recomendou o documentário Clarita, que concorre ao Prêmio Porta Curtas da Petrobrás. A narradora - e diretora - Thereza Jessouroun intercala excelentes dramatizações da atriz Laura Cardoso com cenas reais de sua mãe, e tece um retrato profundamente poético da doença.
Como
a morte, o Alzheimer também faz parte da lista dos males (ainda) irremediáveis.
Seguimos na esperança que o primeiro homem se restabeleça da doença e volte para nos contar o que, por enquanto, só supomos.
domingo, 18 de setembro de 2011
Um diretor em ascensão: Contra o Tempo
Olhe atentamente a foto a seguir:
A resposta é simples: Duncan Jones, diretor do aclamado Moon (2009), seu filme de estreia, é filho do camaleão da música pop. E Contra o Tempo é sua segunda película, lançada este ano nos Estados Unidos como Source Code.
O enredo lembra os filmes mais recentes de Christopher Nolan e, como ele, aposta em brincadeiras com a mente do expectador: idas e vindas sem esclarecimento lançam o personagem principal num emaranhado de dúvidas, confusões mentais e doses letais de adrenalina. A plateia, claro, o acompanha.
Jake Gyllenhaal é Colter Stevens, um capitão do exército americano em operação no Afeganistão que se vê inexplicavelmente transfigurado em Sean Fentress, passageiro de um trem da linha metropolitana de Chicago. Após 8 minutos, a explosão: o trem sofre um atentado terrorista e todos, inclusive Stevens, morrem. A partir daí o personagem encontra-se constantemente alternando entre os inadiáveis últimos 8 minutos de vida de Sean Fentress e uma claustrofóbica cabine que lhe serve de clausura. O filme segue a espiral de loucura que acompanha o heroi até que encontre ou não a redenção por seus erros e o objeto de sua incansável busca.
Duncan Jones parece seguir os mesmos passos do diretor de Inception. Como Nolan, ele dosa sucessos no cinema enquanto arte com bem sucedidos e inteligentes blockbusters, sendo um sopro de ar fresco no saturado mercado de filmes de ação atual. E um alívio para o cinema hollywoodiano, que não tem se levado a sério há pelo menos dez anos.
Aqui cabe uma observação: o cinema, enquanto entretenimento, não tem o dever de elevar a plateia à categoria de doutores do pensamento. Mas nada impede que, aqui e acolá, surjam roteiros que destoem do tradicional, seja por bons plot twists, como é o caso de Contra o Tempo, seja por tramas nada convencionais, como em Inception.
Outro valor do filme é seu visual. Salvo a cena em que o trem explode, Contra o Tempo é uma ficção científica limpa. Isso significa que não há espaço para efeitos de luz e cor exagerados, nem excessivas criações digitais. O verdadeiro trunfo da obra está em sua história e desenvolvimento. Ao contrário de seu primeiro filme, rico em efeitos especiais, Duncan Jones nos mostra que, independente do apelo visual, o essencial para a criação é seu elemento de storytelling, a capacidade de transformar em palavras, sons e imagens a realidade construída a partir de uma ideia original. Pela segunda vez, Duncan Jones triunfa na tarefa.
O filme não é perfeito, não é uma obra-prima e dificilmente será um marco na memória de qualquer expectador. Mas sucede no que se propõe desde a primeira cena: entreter o público com um bom cinema-aventura.
David Bowie certamente está orgulhoso da versatilidade do filhão.
Clique aqui para ir para a página do filme no IMDB.
sábado, 17 de setembro de 2011
Mal de Alzheimer e o poeta sem palavras
Até o Alzheimer se instalar Jack Agüeros era poeta, ativista e líder comunitário. Hoje em dia são poucos os momentos em que recorda de seu passado nas letras. Abaixo, o breve documentário Sem Palavras, sobre a atual condição do poeta.
"Eu deveria voltar a escrever. É bom para o coração."
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Tóquio Proibida, de Jake Adelstein
"Ou você apaga essa matéria, ou apagamos você. E talvez a sua família também. Eles primeiro, que é para você aprender a lição antes de morrer."
Assim começa a jornada do leitor dentro do submundo apresentado por Jake Adelstein. Para o autor, no entanto, é apenas a ponta do iceberg. A partir da ameaça, Adelstein constroi nas próximas 450 páginas o caminho que trilhou para deixar de ser um reles gaijin - estrangeiro - e tornar-se um malquisto informante do FBI e do Departamento de Polícia de Tóquio, entidade policial japonesa por excelência. No entanto, engana-se quem espera relatos de yakuzas (gokudo, como eles preferem) tatuados cometendo atos de extrema violência gratuita. O livro-reportagem é, antes, um retrato apurado das burocracias que regem o mundo criminal japonês. Apenas para se ter uma ideia da dimensão da questão, as máfias japonesas - não existe apenas um grupo yakuza - possuem até registro jurídico, conforme revelado em dado trecho do livro.
O autor, um judeu não-praticante norte-americano, foi o primeiro estrangeiro a ser contratado por um jornal de grande porte japonês, o Yomiuri Shimbun - maior jornal do mundo em volume de circulação. À época, Adelstein era ainda um estudante, terminando seus estudos na Sophia University. Após uma série de percalços foi admitido na redação policial do jornal e enviado a Saitama, cidade na periferia de Tóquio, onde cobriu durante anos os crimes locais e realizou os primeiros contatos com a máfia. Daí em diante sua vida é uma espiral rumo a um inferno do qual não há escapatória.
O destaque é, no entanto, o próprio Jake Adelstein. Conforme ele mesmo atesta, o livro danificou para sempre algumas de suas relações mais estreitas. Inclusive seu casamento. É esse elemento de ambivalência, o sucesso da obra e a falha do homem, que contribui para a riqueza do relato. Jake-san, como é chamado pelos japoneses, faz questão de desnudar sua experiência ao leitor sem o intermédio de dúbios filtros morais. Todas as suas faltas estão ali, visíveis para quem quiser ver. Algumas delas são terríveis, pecaminosas e, sob qualquer aspecto, imperdoáveis. Ele é responsável até mesmo por crimes hediondos implícitos nas entrelinhas de sua queda, mas eles estão ali, aos olhos do leitor. Como se nos prestar contas fizesse parte de sua expiação. De certo modo, é possível que faça. Uma leitura de Tóquio Proibida revelará sentimentos tão ambíguos quanto os que Jake-san experimenta ao longo do livro: empatia, raiva, medo, adrenalina. O elemento humano, aliás, é trazido até nós com exímia perícia: todos os personagens são reais e tratados com o esmero digno dos grandes romancistas. Os gokudo adquirem traços mais palpáveis à medida que Adelstein desmistifica o culto quase romântico aos gângsteres tradicionais e os transforma em executivos de imobiliárias e corretoras de seguro, homens de personalidades não tão distintas das do cidadão comum - exceto pelo código de ética yakuza.
Como um movimento musical dramático, o livro é um crescendo: começa suave e aumenta seu volume gradativamente até estourar em uma violenta sinfonia sobre os descaminhos de uma ordem criminal intocável. É desconstruindo a Yakuza que Jake Adelstein a torna verdadeiramente fascinante. Mais fascinante é, no entanto, a coragem do autor: expondo segredos alheios, expõe a própria vida. E é por expor-se à morte que a narrativa ganha vida a cada página. E é essa vida que volta para Jake em forma de perdão.
O autor, um judeu não-praticante norte-americano, foi o primeiro estrangeiro a ser contratado por um jornal de grande porte japonês, o Yomiuri Shimbun - maior jornal do mundo em volume de circulação. À época, Adelstein era ainda um estudante, terminando seus estudos na Sophia University. Após uma série de percalços foi admitido na redação policial do jornal e enviado a Saitama, cidade na periferia de Tóquio, onde cobriu durante anos os crimes locais e realizou os primeiros contatos com a máfia. Daí em diante sua vida é uma espiral rumo a um inferno do qual não há escapatória.
O destaque é, no entanto, o próprio Jake Adelstein. Conforme ele mesmo atesta, o livro danificou para sempre algumas de suas relações mais estreitas. Inclusive seu casamento. É esse elemento de ambivalência, o sucesso da obra e a falha do homem, que contribui para a riqueza do relato. Jake-san, como é chamado pelos japoneses, faz questão de desnudar sua experiência ao leitor sem o intermédio de dúbios filtros morais. Todas as suas faltas estão ali, visíveis para quem quiser ver. Algumas delas são terríveis, pecaminosas e, sob qualquer aspecto, imperdoáveis. Ele é responsável até mesmo por crimes hediondos implícitos nas entrelinhas de sua queda, mas eles estão ali, aos olhos do leitor. Como se nos prestar contas fizesse parte de sua expiação. De certo modo, é possível que faça. Uma leitura de Tóquio Proibida revelará sentimentos tão ambíguos quanto os que Jake-san experimenta ao longo do livro: empatia, raiva, medo, adrenalina. O elemento humano, aliás, é trazido até nós com exímia perícia: todos os personagens são reais e tratados com o esmero digno dos grandes romancistas. Os gokudo adquirem traços mais palpáveis à medida que Adelstein desmistifica o culto quase romântico aos gângsteres tradicionais e os transforma em executivos de imobiliárias e corretoras de seguro, homens de personalidades não tão distintas das do cidadão comum - exceto pelo código de ética yakuza.
Como um movimento musical dramático, o livro é um crescendo: começa suave e aumenta seu volume gradativamente até estourar em uma violenta sinfonia sobre os descaminhos de uma ordem criminal intocável. É desconstruindo a Yakuza que Jake Adelstein a torna verdadeiramente fascinante. Mais fascinante é, no entanto, a coragem do autor: expondo segredos alheios, expõe a própria vida. E é por expor-se à morte que a narrativa ganha vida a cada página. E é essa vida que volta para Jake em forma de perdão.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Queria que você estivesse aqui: A Vida dos Peixes
Em 1975 o Pink Floyd lançava o clássico Wish You Were Here. Nas linhas finais da faixa-título lia-se:
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after Year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here
Não há nenhuma referência à canção na curta - e suficiente - 1h18min do filme, mas serviria perfeitamente como uma hipotética epígrafe.
O pôster de A Vida dos Peixes é emblemático. Mostra o rosto dos dois personagens principais, em total concordância com a fotografia que permeia a obra. O diretor chileno Matías Bize faz questão de focar suas lentes nas expressões faciais dos atores. O rosto é a chave para a compreensão da obra. É nele que se tornará visível a emoção da rememoração, pivô de toda a ação. A nostalgia de ambos os personagens, vividos por Santiago Cabrera e pela excelente Blanca Lewin, remonta a dez anos atrás, época que recordam enquanto dialogam em frente ao aquário que decora o quarto. Ele, por ocasião de um feriado, volta ao Chile após uma década em Berlim. O motivo é apenas um: revê-la. Ela, por sua vez, tem outra vida, marido e filhas. Não há espaço para o reencontro amoroso e o que se vê diante das câmeras é isso: um ensaio sobre as despedidas.
Na história do cinema não faltam bons exemplos de filmes sobre chegadas e partidas. Não faltam também os sempre recorrentes temas de memória e nostalgia. Mas é errado supor que a fonte esgotou: Bize prova que a imaginação não tem limites, mesmo quando extrai seu líquido vital da própria vida, excluindo seu elemento de criação. Camus, no livro A Queda, diz:
Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.
Em palavras melhores do que as que eu jamais poderia escolher, Camus resume A Vida dos Peixes. É uma fatia da vida de um personagem, sem maiores pretensões do que mostrar o essencial sobre a arte de partir: deixar-se ir.
Passível de múltiplas leituras, o título é uma referência ao próprio cinema: assistimos aos atores da mesma forma como eles assistem aos peixes no aquário. As idas e vindas dos peixes não são diferentes de nossas próprias idas e vindas. A diferença é que a eles não foi concedido o privilégio da partida, da saudade e do retorno.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
O erro de Zhang Yimou: A Maldição da Flor Dourada
É irônico que, em um filme onde o chamariz é em grande parte o uso primoroso de cores vibrantes e contrastantes, o maior destaque seja a trilha sonora.
Explico: o perfeccionismo de Zhang Yimou fez com que seu característico uso de cores, realizado com maestria em Heroi e O Clã das Adagas Voadoras, beirasse o mau gosto. O trabalho é minucioso e as cores também exercem a função de distinguir diferentes estratos sociais. Médicos - que nesse contexto não constituem uma classe privilegiada - e serviçais vestem cinza, assassinos vestem preto e assim por diante. O imperador veste dourado, a cor da nobreza e do crisântemo, flor-símbolo do festival que servirá como clímax para a trama. Em dado momento, Jai, o filho proscrito - que usa cinza - rebela-se e usa também a cor dourada, em uma inteligente metáfora sobre afronta e igualdade. Mas onde reside, portanto, o erro de Yimou?
Em Heroi e O Clã... as cores preservavam sua lucidez artística sem destoar do ambiente. Há perfeita harmonia entre enredo e imagem. Aqui, o diretor peca pelo excesso: os infinitos corredores da Cidade Proibida beiram o inverossímil com suas doses colossais de cores desarmônicas, desnecessárias. O exagero visual não cumpre função alguma. Parece, antes, fruto da megalomania do diretor, sintomas de uma estranha síndrome de grandeza que não encontra correspondente em seu próprio filme. A Maldição da Flor Dourada é a narrativa de sucessivas traições numa fictícia linhagem de desgraçados em uma corte nos tempos da China imperial. No entanto, onde havia potencial para uma intrincada história, há apenas monotonia durante quase toda a película.
É possível dividir o filme em dois momentos: antes e depois do festival. Ou ainda: a primeira hora e os últimos quarenta minutos. Na primeira parte o desenvolvimento é lento, prepara terreno para que o antecipado festival seja a coroa de louros que encerrará a pretensa obra-prima. Não é. Ainda que melhor trabalhada - e que dê conta de reparar alguns erros da primeira - já é tarde: o filme está construído, toda ação é tardia. A Maldição da Flor Dourada demora a ficar interessante e, quando fica, acaba. É um tiro no escuro que atinge o alvo de raspão: alcança o objetivo, mas não causa danos. Resta o mérito final: a bela-canção tema 菊花台 (Terraço de Crisântemos), na voz de Jay Chou.
Quanto a mim, escapei ileso. Talvez tivesse sido diferente se sofresse de epilepsia.
Resumo dos últimos dias
- Um discurso: Isto é água, do David Foster Wallace.
- Uma entrevista: Zygmunt Bauman, para o Fronteiras do Pensamento.
- Um disco: Øresund Space Collective - Dead Man In Space.
- Um filme: A maldição da flor dourada, do megalomaníaco Zhang Yimou.
- Um artigo: Guerra, literatura e horror, do Michel Laub.
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