Acontece de vez em quando: o livro é tão bom que cada página virada é uma fração da tristeza que antecipa o fim.
Lembro-me da leitura de Submundo, do americano Don DeLillo. Foram dois meses para atravessar suas 732 páginas - não pela extensão, mas porque o prazer que a leitura proporcionava era tal que eu me recusava a terminá-la.
Não há como escapar incólume ao prólogo O triunfo da morte (publicado previamente como novela sob o nome Pafko At The Wall) e seus incontáveis personagens, todos carismáticos, humanos. Além
dos criados pelo imaginação do autor, personalidades marcantes na cultura americana fazem parte do romance: J. Edgar Hoover, o chefão do FBI de 1924 a 1972; Lenny Bruce, comediante polêmico e obsceno; Jack Gleason, outro comediante; Frank
Sinatra, entre outros.
A técnica cubista utilizada por DeLillo alterna entre diversos setores narrativos, onde diferentes parágrafos tratam de diferentes temas de forma elíptica. Ao término de um parágrafo retoma-se o assunto de dois ou três parágrafos anteriores. Portando-se como uma ferrenha crítica à Guerra Fria e, principalmente, aos métodos de deposição do lixo nuclear gerado ao longo de cinquenta anos, Submundo erige-se como a obra máxima de Don DeLillo e abre ala para altercações sobre o american way of life numa narrativa que cobre mais de 40 anos de história e versa sobre política, esporte, racismo, infância, família, relacionamentos, arte, marginalidade, homossexualidade, violência e energia nuclear. E não precisa levar dois meses para ser lida.

O mesmo aconteceu com a leitura de The Coast Of Utopia, de Tom Stoppard, sem publicação no Brasil. Toda a trilogia (composta por Voyage, Shipwreck e Salvage) de um dos maiores dramaturgos vivos é compilada neste volume que trata do período pré-revolução na Rússia, sob o governo do czar Nicolau II. Os personagens? Ivan Turgenev, Alexander Herzen, Mikhail Bakunin, Karl Marx - e a lista segue.
Exilados de sua Rússia natal, o grupo de amigos tenta se restabelecer publicando um jornal que tem como modelo os recentes movimentos políticos europeus, particularmente o pensamento dos alemães Fichte, Hegel e Schelling. Bakunin deseja mudança a qualquer preço. Herzen acredita que ela não deve vir à custa do indivíduo e que o homem deve ser preservado do possível caos político que se abateria sobre ele caso as ideias de Bakunin fossem postas em prática.
Esse é apenas o estopim para uma história que trata, acima de tudo, sobre laços: os que unem um ser humano ao outro por via do amor e da amizade e os laços que nos unem ao abstrato, a um país, a ideias e mesmo ao nada - um dos personagens é um conhecido niilista. O verdadeiro trunfo é a condução de Stoppard, que, como um maestro, nos leva por uma verdadeira jornada de imersão, trazendo-nos conteúdo histórico que em nada deve ao mais didático historiador à disposição.
Esta viagem à Europa do século XIX terá em seu caminho chegadas e partidas, algumas bastante doloridas que podem ser mortais a quem ler com a sensibilidade à flor da pele. Mas quem se dispor a ler terá diante de si a prazerosa experiência de, por algumas horas, vestir a pele de um revolucionário a sua escolha.