quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Tóquio Proibida, de Jake Adelstein

"Ou você apaga essa matéria, ou apagamos você. E talvez a sua família também. Eles primeiro, que é para você aprender a lição antes de morrer."
Assim começa a jornada do leitor dentro do submundo apresentado por Jake Adelstein. Para o autor, no entanto, é apenas a ponta do iceberg. A partir da ameaça, Adelstein constroi nas próximas 450 páginas o caminho que trilhou para deixar de ser um reles gaijin - estrangeiro - e tornar-se um malquisto informante do FBI e do Departamento de Polícia de Tóquio, entidade policial japonesa por excelência. No entanto, engana-se quem espera relatos de yakuzas (gokudo, como eles preferem) tatuados cometendo atos de extrema violência gratuita. O livro-reportagem é, antes, um retrato apurado das burocracias que regem o mundo criminal japonês. Apenas para se ter uma ideia da dimensão da questão, as máfias japonesas - não existe apenas um grupo yakuza - possuem até registro jurídico, conforme revelado em dado trecho do livro.

O autor, um judeu não-praticante norte-americano, foi o primeiro estrangeiro a ser contratado por um jornal de grande porte japonês, o Yomiuri Shimbun - maior jornal do mundo em volume de circulação. À época, Adelstein era ainda um estudante, terminando seus estudos na Sophia University. Após uma série de percalços foi admitido na redação policial do jornal e enviado a Saitama, cidade na periferia de Tóquio, onde cobriu durante anos os crimes locais e realizou os primeiros contatos com a máfia. Daí em diante sua vida é uma espiral rumo a um inferno do qual não há escapatória.

O destaque é, no entanto, o próprio Jake Adelstein. Conforme ele mesmo atesta, o livro danificou para sempre algumas de suas relações mais estreitas. Inclusive seu casamento. É esse elemento de ambivalência, o sucesso da obra e a falha do homem, que contribui para a riqueza do relato. Jake-san, como é chamado pelos japoneses, faz questão de desnudar sua experiência ao leitor sem o intermédio de dúbios filtros morais. Todas as suas faltas estão ali, visíveis para quem quiser ver. Algumas delas são terríveis, pecaminosas e, sob qualquer aspecto, imperdoáveis. Ele é responsável até mesmo por crimes hediondos implícitos nas entrelinhas de sua queda, mas eles estão ali, aos olhos do leitor. Como se nos prestar contas fizesse parte de sua expiação. De certo modo, é possível que faça. Uma leitura de Tóquio Proibida revelará sentimentos tão ambíguos quanto os que Jake-san experimenta ao longo do livro: empatia, raiva, medo, adrenalina. O elemento humano, aliás, é trazido até nós com exímia perícia: todos os personagens são reais e tratados com o esmero digno dos grandes romancistas. Os gokudo adquirem traços mais palpáveis à medida que Adelstein desmistifica o culto quase romântico aos gângsteres tradicionais e os transforma em executivos de imobiliárias e corretoras de seguro, homens de personalidades não tão distintas das do cidadão comum - exceto pelo código de ética yakuza.

Como um movimento musical dramático, o livro é um crescendo: começa suave e aumenta seu volume gradativamente até estourar em uma violenta sinfonia sobre os descaminhos de uma ordem criminal intocável. É desconstruindo a Yakuza que Jake Adelstein a torna verdadeiramente fascinante. Mais fascinante é, no entanto, a coragem do autor: expondo segredos alheios, expõe a própria vida. E é por expor-se à morte que a narrativa ganha vida a cada página. E é essa vida que volta para Jake em forma de perdão.

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