terça-feira, 13 de setembro de 2011

O erro de Zhang Yimou: A Maldição da Flor Dourada

É irônico que, em um filme onde o chamariz é em grande parte o uso primoroso de cores vibrantes e contrastantes, o maior destaque seja a trilha sonora.

Explico: o perfeccionismo de Zhang Yimou fez com que seu característico uso de cores, realizado com maestria em Heroi e O Clã das Adagas Voadoras, beirasse o mau gosto. O trabalho é minucioso e as cores também exercem a função de distinguir diferentes estratos sociais. Médicos - que nesse contexto não constituem uma classe privilegiada - e serviçais vestem cinza, assassinos vestem preto e assim por diante. O imperador veste dourado, a cor da nobreza e do crisântemo, flor-símbolo do festival que servirá como clímax para a trama. Em dado momento, Jai, o filho proscrito - que usa cinza - rebela-se e usa também a cor dourada, em uma inteligente metáfora sobre afronta e igualdade. Mas onde reside, portanto, o erro de Yimou?

Em Heroi e O Clã... as cores preservavam sua lucidez artística sem destoar do ambiente. Há perfeita harmonia entre enredo e imagem. Aqui, o diretor peca pelo excesso: os infinitos corredores da Cidade Proibida beiram o inverossímil com suas doses colossais de cores desarmônicas, desnecessárias. O exagero visual não cumpre função alguma. Parece, antes, fruto da megalomania do diretor, sintomas de uma estranha síndrome de grandeza que não encontra correspondente em seu próprio filme. A Maldição da Flor Dourada é a narrativa de sucessivas traições numa fictícia linhagem de desgraçados em uma corte nos tempos da China imperial. No entanto, onde havia potencial para uma intrincada história, há apenas monotonia durante quase toda a película. 


É possível dividir o filme em dois momentos: antes e depois do festival. Ou ainda: a primeira hora e os últimos quarenta minutos. Na primeira parte o desenvolvimento é lento, prepara terreno para que o antecipado festival seja a coroa de louros que encerrará a pretensa obra-prima. Não é. Ainda que melhor trabalhada - e que dê conta de reparar alguns erros da primeira - já é tarde: o filme está construído, toda ação é tardia. A Maldição da Flor Dourada demora a ficar interessante e, quando fica, acaba. É um tiro no escuro que atinge o alvo de raspão: alcança o objetivo, mas não causa danos. Resta o mérito final: a bela-canção tema 菊花台 (Terraço de Crisântemos), na voz de Jay Chou.

Quanto a mim, escapei ileso. Talvez tivesse sido diferente se sofresse de epilepsia.

Um comentário:

  1. Não vi o filme, mas a crítica foi "boa", deu curiosidade de ver também! rs

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