quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As mil palavras de Sebald

Em sua resenha de Guerra aérea e literatura para o Meia Palavra, o escritor Antônio Xerxenesky a certa altura escreve: "O ditado diz: 'Uma foto vale mais do que mil palavras'. Meu querido ditado, você não conhece as mil palavras de Sebald. A descrição de Sebald é muito mais impressionante do que qualquer foto."

Transcrevo abaixo um trecho das tais "mil palavras de Sebald", retirado do primeiro ensaio que compõe o livro, e que trata dos bombardeios aéreos aliados sobre cidades alemãs. A descrição é visceral:

"Dentro de poucos minutos, em toda a área atacada - cerca de vinte quilômetros quadrados - queimavam fogueiras gigantescas que iam se juntando em tal velocidade que, quinze minutos após o lançamento das primeiras bombas, todo o espaço aéreo formava um mar de chamas contínuo, até onde se podia enxergar. E, cinco minutos depois, à 1h20, se ergueu uma tempestade de fogo com uma intensidade que nenhum ser humano teria imaginado possível até aquele momento. Chamejando por 2 mil metros céu adentro, o fogo arrebatava o oxigênio com tamanha violência que as correntes de ar atingiram a força de um furacão, e trovejavam como órgãos poderosos cujos registros tivessem sido acionados ao mesmo tempo. Esse incêndio durou três horas. No seu ponto culminante, a tempestade levantou frontões e telhados de casas, revirou pelo ar vigas e outdoors inteiros, arrancou árvores de solo e açoitou as pessoas em fuga como se fossem tochas vivas. Por trás de fachadas que desmoronavam, as chamas atingiam a altura dos prédios, rolando pelas ruas como uma torrente numa velocidade superior a 150 km/h, e rodopiando em ritmos bizarros pelos espaços abertos, como cilindros de fogo. Em alguns canais a água incandescia. Nos vagões dos bondes, as janelas de vidro derretiam; o estoque de açúcar fervia nos porões das confeitarias. Os que fugiam de seus abrigos caíam em contorções grotescas no asfalto dissolvido, que rompia em volumosas bolhas. Ninguém sabe ao certo quantos morreram nessa noite ou quantos enlouqueceram antes que a morte os atingisse. Quando a manhã despontou, a luz do sol não atravessava a escuridão de chumbo sobre a cidade. A fumaça subiu até uma altura de 8 mil metros e lá se expandira como uma gigantesca nuvem cúmulo-nimbo em forma de bigorna. Um calor latejante, que os pilotos dos bombardeiros relataram ter sentido através da fuselagem de suas aeronaves, foi exalado ainda por muito tempo pelas montanhas de escombros fumegantes em brasa. Bairros residenciais com uma malha de rua totalizando duzentos quilômetros estavam completamente arrasados. Por toda parte havia corpos terrivelmente desfigurados. Em alguns ainda tremeluziam as chamas azuladas do fósforo, outros, assados, apresentavam uma cor marrom ou púrpura e tinham minguado a um terço de seu tamanho natural. Jaziam encolhidos nas poças de sua própria gordura já parcialmente resfriada. Em agosto, depois do arrefecimento dos escombros, quando as brigadas de prisioneiros e internos dos campos de concentração puderam dar início aos trabalhos de desobstrução no interior da zona da morte - decretada área interditada logo nos dias seguintes ao ataque -, foram encontradas pessoas que, arrebatadas pelo monóxido de carbono, ainda se encontravam sentadas à mesa ou apoiadas na parede; em outros lugares, havia pedaços de carne e ossos ou montes inteiros de corpos escaldados pela água fervente lançada pelas caldeiras que explodiram. Outros, por sua vez, foram carbonizados e reduzidos a cinzas pela brasa que atingira a temperatura de mais de 1000 ºC, a tal ponto que os restos mortais de famílias inteiras podiam ser retirados em um único cesto de roupa."


As atrocidades seguem. 

Em breve mais informações sobre o livro aqui no blog.

Um comentário:

  1. Esta descrição com certeza fala mais do que uma foto da cena, principalmente na era da banalização da imagem. O cenário deixado por uma bomba nuclear é realmente devastador, o autor coloca de forma brilhante a paisagem geográfica e o sentimento. Obrigada pela dica.

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