quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Queria que você estivesse aqui: A Vida dos Peixes

Em 1975 o Pink Floyd lançava o clássico Wish You Were Here. Nas linhas finais da faixa-título lia-se:

We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after Year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here

Não há nenhuma referência à canção na curta - e suficiente - 1h18min do filme, mas serviria perfeitamente como uma hipotética epígrafe.

O pôster de A Vida dos Peixes é emblemático. Mostra o rosto dos dois personagens principais, em total concordância com a fotografia que permeia a obra. O diretor chileno Matías Bize faz questão de focar suas lentes nas expressões faciais dos atores. O rosto é a chave para a compreensão da obra. É nele que se tornará visível a emoção da rememoração, pivô de toda a ação. A nostalgia de ambos os personagens, vividos por Santiago Cabrera e pela excelente Blanca Lewin, remonta a dez anos atrás, época que recordam enquanto dialogam em frente ao aquário que decora o quarto. Ele, por ocasião de um feriado, volta ao Chile após uma década em Berlim. O motivo é apenas um: revê-la. Ela, por sua vez, tem outra vida, marido e filhas. Não há espaço para o reencontro amoroso e o que se vê diante das câmeras é isso: um ensaio sobre as despedidas. 


Na história do cinema não faltam bons exemplos de filmes sobre chegadas e partidas. Não faltam também os sempre recorrentes temas de memória e nostalgia. Mas é errado supor que a fonte esgotou: Bize prova que a imaginação não tem limites, mesmo quando extrai seu líquido vital da própria vida, excluindo seu elemento de criação. Camus, no livro A Queda, diz: 
Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza. Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.
Em palavras melhores do que as que eu jamais poderia escolher, Camus resume A Vida dos Peixes. É uma fatia da vida de um personagem, sem maiores pretensões do que mostrar o essencial sobre a arte de partir: deixar-se ir. 

Passível de múltiplas leituras, o título é uma referência ao próprio cinema: assistimos aos atores da mesma forma como eles assistem aos peixes no aquário. As idas e vindas dos peixes não são diferentes de nossas próprias idas e vindas. A diferença é que a eles não foi concedido o privilégio da partida, da saudade e do retorno.

Um comentário:

  1. Adorei a crítica/review, muito bem escrita, interessante e instigadora. Continue com essa qualidade e motivação que seu blog crescerá muito! Parabéns! Baixando já o filme!

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